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CPI da Covid: O que esperar dos depoimentos de Mandetta, Teich e Pazuello

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BBC News Brasil

CPI da Covid: O que esperar dos depoimentos de Mandetta, Teich e Pazuello
Mariana Schreiber – @marischreiber – Da BBC News Brasil em Brasília

CPI da Covid: O que esperar dos depoimentos de Mandetta, Teich e Pazuello

Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid vai interrogar nesta semana todos os ministros da Saúde do presidente Jair Bolsonaro, com objetivo de escrutinar a atuação do governo federal no enfrentamento da pandemia de coronavírus.

Os depoimentos começam na terça-feira (04/05), com os dois primeiros chefes da pasta, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

O dia seguinte foi todo reservado para a CPI ouvir as explicações do general Eduardo Pazuello, quem mais tempo comandou o ministério durante a pandemia. O militar está sendo treinado no Palácio do Planalto para enfrentar uma dura sabatina por parte dos senadores.

Já na quinta-feira falarão o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres. O órgão é responsável por avaliar e autorizar o uso de novas vacinas contra covid-19 no Brasil.

Além da convocação das primeiras testemunhas, na semana passada a CPI aprovou centenas de requerimentos de compartilhamento de informação, requisitando dados sobre a pandemia ao governo federal e a outras instituições, como Polícia Federal, Ministério Público, Tribunal de Contas da União (TCU) e governos estaduais.

Entenda a seguir o que esperar de cada dia de depoimentos nesta semana.

Terça-feira: Henrique Mandetta e Nelson Teich

Ministro da Saúde desde o início do governo Bolsonaro, Mandetta não durou nem dois meses no cargo após a confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil. Seu sucessor, Nelson Teich, teve vida ainda mais curta na pasta: apenas 29 dias.

A saída de ambos é atribuída à resistência de Bolsonaro em aceitar as recomendações científicas para o enfrentamento da pandemia, como adoção de medidas de isolamento social. Em vez disso, o presidente contrariava seus ministros ao incentivar aglomerações, não usar máscara e criticar as decisões de governadores e prefeitos de suspender atividades econômicas e funcionamento de escolas.

Também em desacordo com a ciência, o presidente queria que a pasta da Saúde incentivasse o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra covid-19, como a cloroquina. Mandeta e Teich, porém, se recusaram a adotar um novo protocolo no ministério recomendando a substância para “tratamento precoce” da doença.

A expectativa é que senadores independentes e de oposição ao governo, que somam sete dos onze integrantes da CPI, tentem esclarecer nos depoimentos se essas condutas de Bolsonaro contribuíram para a aceleração do contágio e do número de mortes causadas pelo coronavírus no Brasil, que já superam 400 mil.

 Mandetta e Teich irão depor à CPI nesta terça (04); Pazuello falará amanhã (05)
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Mandetta e Teich irão depor à CPI nesta terça (04); Pazuello falará amanhã (05)


Os dois ex-ministros adotaram postura crítica a Bolsonaro após deixar o governo, o que indica que não devem poupar o presidente ao responder aos questionamentos.

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Em entrevista ao canal CNN Brasil em dezembro, por exemplo, Teich criticou a demora do governo federal na compra de vacinas. “O presidente já deixou muito clara a posição dele. Ele não quer ser uma liderança na vacinação da covid-19 no Brasil. Não adianta reclamarmos”, destacou.

Mandetta, por sua vez, lançou no ano passado um livro em que acusa o presidente de fechar os olhos para a gravidade da crise. Na publicação, o ex-ministro afirma que no início da crise sanitária tentou alertar Bolsonaro sobre o elevado número de mortes que o Brasil registraria caso não adotasse medidas de isolamento social. Na ocasião, sua estimativa era de 180 mil óbitos, patamar que foi alcançado em dezembro.

Apesar disso, segundo Mandetta, a reação de Bolsonaro foi questionar se o então ministro elogiaria as medidas de isolamento do Estado de São Paulo. “Ele nunca aceitou sentar comigo para ver a realidade que o seu governo estava para enfrentar”, resume no livro.

Pré-candidato a presidente da República pelo DEM, Mandetta deve enfrentar perguntas incomodas de senadores governistas, que estão preocupados com o uso da CPI como palanque político pelo ex-ministro.

“Na época do Mandetta, não se fez nada. Ele passava o dia inteiro dando entrevista, em vez de cuidar da logística, em vez de fazer os enfrentamentos”, criticou o senador Ciro Nogueira (PP-PI), em entrevista à BBC News Brasil.

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“Eu digo pelo meu Estado (Piauí), tudo só aconteceu depois que ele saiu: de levar leitos de UTI, levar assistência. Então, são situações que a gente tem que esclarecer agora na CPI, mas sem nenhum prejulgamento”, acrescentou o senador que é um dos principais aliados de Bolsonaro na comissão.

Quarta-feira: Eduardo Pazuello

Após as quedas de Mandetta e Teich, Bolsonaro desistiu naquele momento de ter um médico na chefia do Ministério da Saúde e deu a pasta para o general Eduardo Pazuello, que se alinhou plenamente às orientações do presidente no enfrentamento da pandemia. Ele comandou o ministério por dez meses, entre maio de 2020 e março deste ano.

Por ser o mais longevo ministro durante a pandemia, recai sobre Pazuello as acusações de maior responsabilidade sobre a escalada de mortes no país.

O vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), elenca em seu requerimento para ouvir Pazuello o que vê como uma lista de problemas que devem ser abordados na CPI: “Falhas na estratégia de comunicação; nas ações de vigilância e mapeamento da pandemia; promoção de tratamentos ineficazes; má gestão das necessidades de leitos de UTIs no país; falhas no planejamento de fornecimento de insumos básicos como oxigênio, medicamentos, EPIs (equipamentos de proteção individual), testes, respiradores; atraso e omissão para a compra de vacinas”.

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Preocupado com o bombardeio previsto contra Pazuello, o governo elaborou uma lista de 23 possíveis acusações a serem enfrentadas na CPI, e solicitou aos ministérios que preparem repostas a essas questões.

O documento, elaborado pela Casa Civil e revelado pelo portal UOL , inclui acusações como: o governo federal recusou 70 milhões de doses da vacina da Pfizer; o governo foi negligente com processo de aquisição e desacreditou a eficácia da Coronavac (vacina do Instituto Butantan em parceria com a China); o governo minimizou a gravidade da pandemia; o governo promoveu tratamento precoce sem evidências científicas comprovadas; e o governo entregou a gestão do Ministério da Saúde, durante a crise, a gestores não especializados (militarização do MS).

Além de preparar material para municiar as respostas de Pazuello, a Casa Civil também está treinando o general para depor na CPI, segundo reportagem do jornal O Globo.

O ex-ministro tem sido alvo até mesmo de “fogo amigo”. Em recente entrevista à revista Veja, Fábio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro, atribuiu à “incompetência e ineficiência” da gestão Pazuello o fracasso na aquisição de 70 milhões de vacinas da Pfizer.

A CPI deve aprovar nesta terça a convocação para Wajngarten depôr na próxima semana.

Renan Calheiros discute com senador Ciro Nogueira

AGÊNCIA SENADO
Renan Calheiros discute com senador Ciro Nogueira durante sessão da CPI da Covid

Quinta-feira: Marcelo Queiroga e Antonio Barra Torres

O atual ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga, assumiu a pasta em meados de março, quando o Brasil vivia uma escalada de recordes nas mortes diárias pela covid-19.

Segundo requerimento de convocação apresentado pelo relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), ele deverá responder questões sobre “isolamento social, vacinação, postura do Governo, emprego de medicamentos sem eficácia comprovada, propagando oficial, omissão de dados, entre outros temas”.

Já o senador Antonio Coronel (PSD-BA) diz que “é importante questionar o atual ministro sobre os próximos passos para a vacinação contra a covid no Brasil e a organização do Plano Nacional de Imunização para tal finalidade”.

O tema vacinação também é foco de pedido de convocação do presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres.


Ele deve ser questionado sobre o processo de aprovação da vacina Coronavac, cujos testes da fase 3 chegaram a ser interrompidos por decisão da Anvisa, o que gerou suspeitas de interferência política por parte do governo Bolsonaro.

Nas últimas semanas, a agência voltou a ser alvo de controvérsia ao não autorizar a importação da vacina russa, Sputnik V. Defensores da Anvisa dizem que as decisões tomadas durante a pandemia foram pautadas em análises técnicas.

Fonte: IG SAÚDE

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Brasil deveria ter priorizado CoronaVac ou Pfizer para grávidas, dizem médicos

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BBC News Brasil

Covid-19: Brasil deveria ter priorizado CoronaVac ou Pfizer para gestantes, dizem médicas e cientistas
André Biernath – Da BBC News Brasil em São Paulo

Covid-19: Brasil deveria ter priorizado CoronaVac ou Pfizer para gestantes, dizem médicas e cientistas

A notícia de que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou  paralisar uso da vacina AZD1222, de AstraZeneca e Universidade de Oxford, em grávidas caiu como uma bomba.

Sem maiores orientações, gestores de saúde de estados e municípios brasileiros decidiram suspender o uso desse imunizante nas mulheres que esperam um bebê e nas puérperas, aquelas que deram à luz há menos de dois meses.

Em alguns locais, o bloqueio das campanhas foi ainda mais drástico: no Rio de Janeiro, por exemplo, nem as vacinas CoronaVac (Sinovac/Instituto Butantan) e Cominarty (Pfizer/BioNTech) poderão ser aplicadas nas gestantes até segunda ordem.

A decisão foi recebida com muitas críticas por médicas e cientistas ouvidas pela BBC News Brasil. Algumas chegaram a classificar a situação como “catastrófica”.

“É muito fácil suspender uma vacina diante de um primeiro evento supostamente adverso e não pensar nas repercussões que essa medida vai ter sem uma campanha de esclarecimento, sem oferecer de imediato uma alternativa que já poderia ter sido planejada desde o começo”, aponta a ginecologista e obstetra Melania Amorim, professora da Universidade Federal de Campina Grande.

“Essa paralisação é inadmissível. De cada dez mulheres grávidas que morrem por covid-19 no mundo, oito são brasileiras”, estima a especialista em políticas públicas de saúde Michelle Fernandez, professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília.

A avaliação é que toda essa dor de cabeça poderia ter sido evitada se o Ministério da Saúde tivesse tomado algumas precauções e feito uma campanha de comunicação centralizada e mais clara, avaliam as especialistas.

O seguro morreu de velho

Nas primeiras versões do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, o Ministério da Saúde não incluía as gestantes e as puérperas entre os grupos que receberiam as doses antes dos demais cidadãos.

Mas uma atualização no documento publicada no dia 27 de abril passou a incluir essas mulheres entre as prioridades.

A decisão acatou as demandas de diversas entidades, que alertavam para o maior risco que esse público corria — as evidências apontam que grávidas com covid-19 têm um risco maior de agravamento e necessidade de intubação quando comparadas às mulheres da mesma idade que não esperam um filho.

Gestante usando por máscara anda numa rua com um grafite de outra mulher, que também usa máscara

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Estudos indicam risco aumentado de complicações da covid-19 entre as gestantes

Esse panorama é ainda mais complexo no Brasil, que apresenta a maior taxa de mortalidade materna por covid-19 no mundo.

“O problema é que a falta de coordenação central sobre a vacinação foi a tônica desde o início. Quando as gestantes foram incluídas no planejamento, os estados começaram a vacina-las seguindo critérios próprios”, rememora Amorim, que também integra a Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras.

“Alguns estados imunizaram todas as gestantes. Outros, só aquelas que apresentavam comorbidades. Um terceiro grupo nem iniciou a imunização delas”, completa.

Além da falta de uma orientação uniforme para todo o Brasil, a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo, destaca que o Ministério da Saúde poderia ter indicado o uso específico apenas da CoronaVac ou da Pfizer para esse público.

“A chegada das primeiras 1 milhão de doses da vacina de Pfizer/BioNTech aconteceu no mesmo momento em que as grávidas foram incluídas no programa de imunização brasileiro. Esse lote deveria ter sido totalmente direcionado para essas mulheres”, avalia.

“É claro que a quantidade não seria suficiente, mas poderíamos ter usado também a CoronaVac”, conclui.

Mas quais seriam os problemas da vacina AZD1222 neste grupo? Será que faz sentido interromper seu uso durante os nove meses de gestação?

Risco mínimo, mas que precisa ser levado em conta

O uso da vacina de AstraZeneca e Oxford em larga escala revelou que ela está relacionada a um efeito colateral raríssimo: a trombose trombocitopênica.

Em linhas gerais, o imunizante pode levar a uma reação imune que altera o sistema de coagulação do sangue e favorece o surgimento de trombos, que interrompem a circulação, especialmente nos vasos que irrigam o cérebro ou o sistema digestivo.

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Mas, como dito acima, a probabilidade de isso ocorrer é baixíssima: de acordo com as últimas informações, esse evento adverso atingiria cerca de 0,0004% daqueles que tomam essa vacina.

A título de comparação, o risco de desenvolver trombose como uma complicação em quadros de covid-19 grave fica na casa dos 16,5% — ou seja, é 41 mil vezes maior.

Mão com luva segura ampola de vacina de AstraZeneca e Universidade de Oxford

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Vacina de AstraZeneca e Universidade de Oxford é utilizada em larga escala nas campanhas em andamento no Brasil, no Reino Unido e em diversos outros países

Num momento de pandemia, com alta transmissibilidade de um vírus potencialmente fatal, as agências regulatórias de todos os países levam em conta o risco-benefício da aprovação de um novo produto: está mais do que claro que a probabilidade de morrer por covid-19 é infinitamente superior ao efeito colateral dessa vacina, que é utilizada em vários lugares do mundo, incluindo Brasil, Reino Unido e boa parte da Europa.

Mas o que aconteceu nos últimos dias para que a Anvisa divulgasse essa recomendação de paralisar o uso, que foi rapidamente acatada por cidades e municípios? A justificativa está na morte de uma gestante no Rio de Janeiro, que parece ter tomado a AZD1222 dias antes.

A grande questão é que a investigação desse caso está em aberto e ainda não se sabe se o óbito se relaciona diretamente ao imunizante.

“As pessoas precisam entender que nem tudo que acontece após a vacinação é causado pela vacinação”, esclarece a médica Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

É necessário ter em mente que a própria gestação favorece o aparecimento de tromboses: estima-se que esse problema afete entre uma e duas mulheres a cada mil grávidas, independentemente de qualquer vacina.

Esse caso específico, notificado no Rio de Janeiro, tem a ver com a AZD1222? Ou ele foi causado por um quadro de covid-19? Ou será que foi um efeito da própria gravidez?

Por ora, ninguém sabe ao certo. Só uma investigação científica aprofundada poderá esclarecer esses fatos e determinará o andamento da campanha nas próximas semanas.

Um pouco mais de segurança

É importante dizer que os testes clínicos que servem de base para a aprovação das vacinas geralmente não incluem grávidas entre os voluntários.

Isso vale, inclusive, para os estudos dos produtos que previnem a covid-19: nenhum deles avaliou como as doses agiriam no organismo dessas mulheres.

Isso é esperado, uma vez que o período de nove meses do desenvolvimento do bebê costuma ser marcado por uma série de mudanças no corpo, que exigem maior cuidado e atenção.

Mas como então se sabe se os imunizantes serão seguros e eficazes neste grupo?

“Quando a vacina já está aprovada e em uso, acontece de gestantes serem vacinadas inadvertidamente. Esses casos são notificados e acompanhados pelas autoridades sanitárias, que observam o aparecimento de eventos adversos ou não”, conta Ballalai.

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Isso permite indicar com mais segurança determinado produto para elas.

Gestante com máscara segura e acaricia a barriga

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Gestantes não costumam fazer parte dos voluntários nos testes clínicos de novas vacinas

Um outro caminho é realizar estudos clínicos com as gestantes depois que a vacina já está sendo usada em larga escala em outros grupos.

E foi justamente isso que ocorreu com a Cominarty: um trabalho coordenado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, analisou dados de mais de 35 mil gestantes americanas de 16 a 54 anos, que receberam as duas doses da vacina desenvolvida por Pfizer e BioNTech.

Os resultados preliminares, publicados no final de abril no periódico New England Journal of Medicine , não indicam qualquer preocupação com efeitos colaterais do imunizante nesse público em específico.

Já no caso da CoronaVac, outra opção disponível na campanha brasileira, ainda não existem pesquisas do tipo.

Mas as cientistas ouvidas pela BBC News Brasil entendem que a experiência prévia com outros imunizantes que usam a mesma tecnologia dá mais segurança para seu uso em gestantes.

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“A CoronaVac é feita a partir de vírus inativados. Trata-se do mesmo princípio de outras vacinas, como a que protege contra a gripe, utilizada há muitos anos em gestantes”, aponta Maciel.

Cenário internacional

A vacinação contra a covid-19 na gravidez levanta uma série de dúvidas não só no Brasil, mas no mundo todo.

Em linhas gerais, a orientação é que essas mulheres podem receber as doses com segurança.

Nos Estados Unidos, o CDC afirma que , “com base em como as vacinas atuam no corpo, os especialistas acreditam ser improvável que elas representem um risco para as pessoas que estão grávidas. No entanto, existem dados limitados sobre a segurança das vacinas contra a covid-19 nessas mulheres”.

A orientação das entidades americanas é conversar com o médico e tomar a decisão com base nos riscos e nos benefícios.

No Reino Unido, as diretrizes seguem a mesma tendência : “As vacinas de Pfizer/BioNTech e Moderna são as mais indicadas para mulheres grávidas. Qualquer pessoa que já tenha iniciado a vacinação e vá receber uma segunda dose durante a gravidez deve tomar a mesma vacina, a menos que tenha tido um efeito colateral sério após a primeira dose.”

a Organização Mundial da Saúde reconhece que existem poucos dados disponíveis sobre o uso de imunizantes contra a covid-19 em gestantes e pede estudos mais conclusivos antes de lançar suas próprias recomendações sobre o tema.

O que fazer agora?

É óbvio que toda essa discussão das últimas horas causou agonia em muitas gestantes e seus familiares.

Aquelas que já receberam a primeira dose da AZD1222 precisam se preocupar ou fazer algo?

O momento é de calma — como dito anteriormente, pelo que se sabe até agora o risco de uma trombose é baixíssimo.

“É importante que a gestante que foi vacinada fique atenta aos sintomas e procure o serviço de saúde se estiver com incômodos cerebrais ou abdominais, como dor persistente”, orienta Amorim.

Esses sintomas costumam ocorrer entre três e 21 dias após a vacinação e não devem ser confundidos com a reação normal do organismo após receber a dose, que inclui dor no local da aplicação e febre baixa.

Na dúvida, converse com o profissional de saúde que acompanha a gestação para receber orientações personalizadas.

Gestante faz exame de ultrassom

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Mesmo na pandemia, é essencial fazer o pré-natal e todos os exames de acompanhamento

Mas e o que vai acontecer com a segunda dose em gestantes? Será necessário voltar para tomar o reforço da vacina de AstraZeneca e Universidade de Oxford?

Essa questão ainda não tem uma resposta. A expectativa é que o Ministério da Saúde lance uma nota técnica com orientações nas próximas horas.

Há dois caminhos possíveis a seguir.

Uma opção é completar a proteção com a própria AZD1222. “Se a mulher não teve efeito colateral na primeira dose, a probabilidade de ter alguma coisa na segunda diminui consideravelmente”, diz Maciel.

A segunda alternativa é usar outro tipo de vacina, a despeito da falta de evidências sobre essa “mistura”.

“É provável que as gestantes recebam a segunda dose da CoronaVac ou da Pfizer”, antevê Ballalai.

Falta de coordenação

Independentemente da decisão, as especialistas consideram que as decisões de interrupção poderão ter um efeito negativo na evolução da campanha de vacinação contra a covid-19, especialmente entre as grávidas.

“O prejuízo é enorme, porque abala ainda mais a confiança da população nas vacinas e nas autoridades de saúde”, estima Ballalai.

E a falta de ações organizadas e lideradas pelo Ministério da Saúde é outro ponto que contribui para essa erosão.

“O Brasil sequer tem uma comunicação bem feita sobre a vacinação contra a covid-19. A população não sabe quando vai tomar as doses, quais são os requisitos, e isso se repete com o avançar de cada fase da campanha”, critica Fernandez.

“Todo esse problema catastrófico pode ser atribuído a essa descoordenação geral e, infelizmente, ao fato de que a saúde materno-infantil e os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres não são prioridade para nossos governantes”, complementa Amorim.

A reportagem da BBC News Brasil entrou em contato com a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde para ter um posicionamento oficial a respeito do assunto, mas até a publicação desta reportagem não havia recebido nenhuma resposta.


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Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Após morte, Saúde interrompe vacinação de gestantes com vacina da AstraZeneca

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Coletiva do Ministério da Saúde
Foto: Reprodução/Ministério da Saúde

Coletiva do Ministério da Saúde

Após a morte de uma gestante no Rio de Janeiro, dias depois de ter recebido a vacina da Oxford/AstraZeneca, o Ministério da Saúde decidiu interromper temporariamente a vacinação de grávidas e puérperas com o imunizante produzido no Brasil pela Fiocruz. O anúncio foi feito em coletiva de imprensa do Ministério da Saúde nesta terça-feira (11). 

O objetivo é investigar possíveis eventos adversos nestas mulheres após a aplicação das doses. Apesar da decisão, ainda não há estudos que comprovem a relação da vacina com o óbito da grávida. Investigaçã está em andamento.

A mulher grávida, que não teve o nome revelado, morreu no Rio de Janeiro após dar entrada em um hospital particular no último dia 5 de abril com um quadro grave de trombose em uma veia do cérebro. Ela e o bebê morreram na segunda-feira (10).

Hoje (11), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou em nota que a recomendação para suspender a aplicação da vacina AstraZeneca contra Covid-19 em grávidas foi feita pelo órgão após a notificação da morte suspeita de uma gestante de 35 anos.

“Foi notificada à Anvisa, na última sexta (07 de maio de 2021), pelo próprio fabricante da vacina Oxford/AstraZeneca/Fiocruz, a Fiocruz, a suspeita de evento adverso grave de acidente vascular cerebral hemorrágico com plaquetopenia ocorrido em gestante e óbito fetal”, informou a agência.

De acordo com o órgão, a gestante morreu em 10 de maio e o caso ainda é investigado. “O evento adverso grave de acidente vascular cerebral hemorrágico foi avaliado como possivelmente relacionado ao uso da vacina administrada na gestante”, diz a Anvisa. 

Por meio de nota, a AstraZeneca explicou que “grávidas ou mulheres amamentando foram excluídas dos estudos clínicos”. “Referente a suspensão do uso da vacina AstraZeneca/Fiocruz por parte da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a AstraZeneca esclarece que as mulheres que estavam grávidas ou amamentando foram excluídas dos estudos clínicos. Esta é uma precaução usual em ensaios clínicos. Os estudos em animais não indicam efeitos prejudiciais diretos ou indiretos no que diz respeito à gravidez ou ao desenvolvimento fetal”, diz resposta da empresa.

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Em atualização

Fonte: IG SAÚDE

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Covid-19: a cientista ‘detetive’ que acendeu alerta sobre hidroxicloroquina

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BBC News Brasil

Covid-19: a cientista 'detetive' que acendeu alerta sobre hidroxicloroquina
Paula Adamo Idoeta – Da BBC News Brasil em São Paulo

Covid-19: a cientista ‘detetive’ que acendeu alerta sobre hidroxicloroquina

A holandesa Elisabeth Bik tem se dedicado a uma tarefa peculiar no meio científico: ela passa horas diante de seu computador, analisando centenas de estudos, atenta a falhas (intencionais ou acidentais) como duplicações ou adulterações de imagens, plágio, conflitos de interesse nos dados apresentados ou incongruências nas evidências científicas.

A microbiologista virou uma especialista em “integridade científica”: na prática, isso consiste na análise (não remunerada) de milhares de estudos biomédicos, em busca de erros que possam comprometer seus resultados. Bik também tem um trabalho pago, de consultoria e palestras para universidades e centros de pesquisa, sobre como melhorar seus processos.

Faz pouco mais de um ano que Bik foi uma das cientistas a levantar preocupações sobre um estudo que ganharia proporções não previstas na época: trata-se da pesquisa do instituto médico francês IHU-Méditerranée Infection, em Marselha, publicada inicialmente em março de 2020 com a afirmação de que “a cloroquina e a hidroxicloroquina eram eficientes contra o SARS-CoV-2”, o vírus da covid-19.

Foi a partir desse estudo que esses remédios passaram a ser exaltados pelo então presidente americano Donald Trump, publicamente promovidos pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro, incorporados no criticado “tratamento precoce” contra a doença no Brasil, receitados preventivamente por alguns médicos daqui e até usados, em alguns casos, em nebulizadores – apesar de advertências de que ainda não foram encontrados benefícios concretos da cloroquina e, ao contrário, terem sido identificados significativos riscos colaterais dessa medicação. Hoje, o uso amplo do medicamento é um dos alvos da investigação da CPI da Covid, em curso no Senado.

Para Bik, foi a a politização do estudo inicial que fez com que ele ganhasse tanto alcance, apesar de seus resultados clínicos serem considerados insuficientes pela comunidade científica.

“Eu não estava contra o uso da hidroxicloroquina, apenas achei que o estudo do laboratório de Didier Raoult (um renomado epidemiologista francês e um dos principais autores da pesquisa) não havia sido bem executado, e era muito cedo para basear uma grande decisão apenas naquela pesquisa – era necessário haver mais evidências, e essas evidências nunca vieram”, diz Bik à BBC News Brasil.

“Mas rapidamente isso foi politizado, porque Trump endossou o estudo ao tuitar a respeito. Daí aconteceu que se você fosse republicano, basicamente tinha de ser a favor do estudo e se fosse democrata tinha de ser contra. O que é muito estranho – discussões sobre ciência não costumam pular para a política, mas nesse caso aconteceu. Virou algo grande: muitas pessoas passaram a defender o estudo. Mas os cientistas estavam em sua maioria vendo que o medicamento não era útil.”

Em setembro, Didier Raoult foi denunciado pela Sociedade de Patologia Infecciosa de Língua Francesa (SPILF) por “promoção indevida de medicamento”. Em janeiro deste ano, o médico admitiu numa carta ter excluído alguns voluntários do resultado da pesquisa (veja mais detalhes abaixo). Mas ele mantém a defesa de seu estudo original e da eficácia da hidroxicloroquina em parcela dos casos de covid-19.

Quanto a Elisabeth Bik, no dia em que conversou com a BBC News Brasil, a pesquisadora havia acabado de receber a notificação de que está sendo processada por difamação por Raoult, que em declarações públicas prévias a chamou de “maluca” e “caçadora de bruxas” por suas críticas.

Elisabeth Bik, em entrevista à BBC News Brasil

Reprodução
‘Discussões sobre ciência não costumam pular para a política, mas nesse caso aconteceu’, diz Elisabeth Bik

Na conversa com a reportagem, Bik (que fez seu PhD na Holanda e foi pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford, nos EUA e também de empresas privadas) detalha as críticas feitas ao estudo francês e também explica o trabalho de desmascarar problemas em pesquisas científicas – os quais, segundo ela, prejudicam toda a comunidade de pesquisas global e ajudam a erodir a confiança do público na ciência.

A hidroxicloroquina, um ano depois

Em 24 de março do ano passado, Bik fez uma longa resenha em seu blog (em inglês) sobre o estudo de Didier Raoult e colegas, os quais apresentavam resultados da hidroxicloroquina em 26 pacientes de covid-19, em comparação com um grupo de controle de 16 pacientes.

Após serem tratados com a droga (e também com o antibiótico azitromicina, no caso de seis dos 26 pacientes), todos eles tiveram testes RT-PCR negativos para o novo coronavírus, o que levou-os a concluir que a droga contra a malária funcionaria contra a covid-19.

Mas Bik levantou questionamentos sobre a metodologia usada pelo estudo, que segundo ela prejudicam as conclusões, como:

– Lapsos no cronograma: os dados apresentados no estudo não deixam claro qual foi o resultado do teste PCR dos pacientes na metade do estudo, como havia sido originalmente planejado. Isso despertou preocupações quanto a se dados potencialmente negativos poderiam ter sido omitidos.

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– Havia muitas diferenças entre os grupos de controle (ou seja, pessoas que não foram tratadas com hidroxicloroquina) e o grupo de pacientes do estudo, o que dificulta a comparação entre ambos e, portanto, os resultados da pesquisa.

– Embora o estudo tenha começado com 26 pacientes, termina apresentando dados de apenas 20 deles. Dos seis faltantes, três haviam sido transferidos para a UTI, um morreu e dois abandonaram a medicação. “É como dizer ‘meus resultados são incríveis se eu tiro as pessoas em que eles se saíram muito mal’. É claro que (o estudo) parece ótimo (se você tira os pacientes que morreram), mas não é honesto fazer isso”, diz Bik à BBC News Brasil.

– Um dos autores é também editor-chefe do periódico onde o estudo foi publicado, o International Journal of Antimicrobial Agents. “Isso pode ser percebido como um enorme conflito de interesses, em particular ao lado de um processo de revisão de pares (quando cientistas revisam o estudo de seus colegas) que durou menos de 24 horas”, escreveu Bik na época. “É o equivalente a permitir que um estudante dê a nota de seu próprio trabalho escolar.”

Bolsonaro com caixa de cloroquina, em foto de setembro de 2020

Carolina Antunes/PR
Bolsonaro com caixa de cloroquina, em foto de setembro de 2020; o chamado ‘kit covid’ tem sido apontado como prejudicial ao tratamento da covid-19

‘Era necessário pesquisar mais’

A pesquisadora concorda que, em meio a uma pandemia, processos científicos tradicionalmente lentos precisam mesmo ser apressados.

“Isso (os questionamentos) não necessariamente indica que a hidroxicloroquina não funciona, mas sim que o estudo não era bem feito. O que é compreensível: em março do ano passado, tudo era tão incerto e todos buscavam uma droga maravilhosa que pudesse ajudar”, prossegue a pesquisadora.

“Mas não acho que com base nesse estudo em particular era possível tomar grandes decisões sobre como tratar milhões de pessoas. Era necessário pesquisar muito mais.”

A BBC News Brasil consultou Didier Raoult por e-mail a respeito das críticas a suas pesquisas e sobre o processo legal contra Bik, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

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Em entrevista recente ao jornal francês Le Figaro, Raoult diz que não tem arrependimentos. “Nunca disse que (a droga) curaria 100% dos pacientes. Mas sustento que essa molécula melhora as condições de pacientes precoces ou avançados, mas não na fase final (da doença)”, declarou.

Desde esse estudo inicial, diz Bik à BBC News Brasil, “eu esperava que haveria outro estudo para sustentar (as conclusões), mas ainda não vi nenhum outro estudo mostrando que esse primeiro estava correto. Houve estudos mostrando que estava errado e houve muitos estudos em uma zona cinza, (dizendo que) em algumas situações (a cloroquina) pode ter ajudado um pouquinho, mas na maioria dos casos não parece ter ajudado e, na verdade, parece ter deixado os pacientes em pior estado, principalmente se eles já estivessem muito doentes. O que, por sinal, era o que o estudo inicial alegava – não dizia que (a hidroxicloroquina) era para ser profilático ou preventivo, e sim que era para melhorar pessoas muito doentes. É o que o estudo tentou provar inicialmente, mas não provou, não apresentou dados.”

É bom destacar que foram encontrados erros também na outra ponta do espectro: em junho de 2020, o prestigioso periódico The Lancet anunciou a retratação de um artigo científico publicado no mês anterior que refutava os benefícios da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Retratações ocorrem quando quando algum tipo de má-conduta, como fraude ou erro, é detectada no estudo.

Nesse caso, o problema parece estar no banco de dados da empresa Surgisphere, usado para embasar as pesquisas.

O saldo desse debate neste momento é de que a cloroquina, junto ao conjunto de remédios do chamado “kit covid-19”, não são reconhecidos – ou são ativamente contraindicados – pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da Europa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) no tratamento do coronavírus.

Dr Didier Raoult

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Didier Raoult, conhecido médico francês, é o autor do estudo inicial e mantém a defesa dele

“Quando esse estudo na The Lancet foi retratado, fez com que muita gente dissesse: ‘nenhuma pesquisa é confiável’. O que, na minha opinião, não está correto”, afirma Elisabeth Bik.

“Houve tanta informação em 2020, e acho que algumas pessoas estão prontas para acreditar no que quer que escutem (…), mais do que nos cientistas. O que é uma pena, porque a ciência é a resposta para resolver problemas. Mas as pessoas não conseguem mais distinguir a verdade da mentira”, lamenta.

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Trabalho de ‘detetive científico’ encontrou ‘usinas de estudos’ fraudados

O trabalho de Bik em integridade científica às vezes é comparado com o de um detetive: “recebo muitas dicas, gente pedindo: ‘você pode olhar estas imagens, ver estes estudos?'”, conta.

“Também tenho uma grande planilha de estudos em que já identifiquei (incongruências) no passado e dos quais ainda não tive tempo de investigar os estudos dos mesmos autores. Às vezes ‘photoshopam’ (ou seja, copiam imagens de outros estudos) e você pensa: se fizeram uma vez, podem ter feito outras. Mas nunca sobra tempo para checar todos os pedidos, recebo muito mais dicas do que consigo investigar.”

O foco principal de Bik é na duplicação de imagens, ou seja, no uso irregular de imagens antigas para ilustrar estudos novos, como se elas apresentassem uma nova descoberta. A cientista também esmiúça eventuais conflitos de interesse nas pesquisas.

“Por exemplo, casos em que o autor é fundador de uma startup e promove determinada descoberta, da qual ele também tem a patente, mas sem revelar isso. É preciso explicitar essa informação. Você pode publicar, claro, mas precisa explicitar que ‘sou fundador dessa startup e posso enriquecer com o que é promovido por esta pesquisa’.”

Além das críticas ao estudo francês da cloroquina, o trabalho de Bik também teve repercussão no ano passado ao ajudar a desmascarar o que ela chama de “usinas de estudos” fraudulentos: junto com outros pesquisadores, ela identificou, particularmente na China, mais de 500 estudos que parecem ter sido copiados entre si, e depois vendidos a “clientes” – médicos de hospitais chineses que dependem de ter estudos publicados em seu nome para avançar na carreira, diz ela.

“Às vezes as pessoas são forçadas a escrever estudos sob condições irreais. Temos esse exemplo da China: se você é um médico que concluiu a universidade, precisa publicar um estudo mesmo que não queira ser pesquisador, queira apenas trabalhar em um hospital. Mas você sequer tem tempo sobrando para fazer pesquisa, ou seu hospital sequer tem infraestrutura de espaço ou equipamentos para pesquisa. Essas pessoas se veem sem saída, então acabam comprando um estudo. E há empresas dedicadas a fazer estudos falsos. São ‘usinas de estudos’ (paper mills, em inglês). Acreditamos que sejam grupos de crime organizado, dedicados a vender e publicar estudos falsos.”

Em agosto do ano passado, autoridades chinesas iniciaram uma investigação sobre o caso.

Laboratório científico

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‘Em uma emergência (como a pandemia), você quebra as regras, porque todos estão esperando por respostas. Mas aprendemos que a ciência rápida não é necessariamente a melhor ciência’, diz Bik

Pressão para publicar

Para Bik, para além dessas usinas, erros e problemas em pesquisas podem ser acidentais ou de boa-fé, relacionados à pressão enorme sobre pesquisadores para que tenham trabalhos publicados com rapidez – particularmente em momentos de crise, como a pandemia atual. Idas e vindas são também parte normal do trabalho científico, que muitas vezes exige anos até que se tenha clareza sobre o impacto de um determinado tratamento ou medicamento, por exemplo.

Em outros casos, porém, erros parecem ser fruto de problemas mais graves.

“Há cientistas trabalhando em universidades que têm grandes expectativas. Podem ter publicado estudos bem-sucedidos, mas pode ser que as pesquisas (atuais) não estejam indo muito bem, então podem cometer fraude para continuar a ter bons resultados. Há também pesquisadores que trabalham em laboratórios sob o comando de professores assediadores: ‘se você não me trouxer esses resultados, será demitido e contratarei alguém que os consiga’. Alguns são ameaçados verbalmente ou, por exemplo, ameaçados de perder seu visto e ter de voltar para seu país de origem”, explica.

Essa ciência malfeita, opina Bik, tem consequências de longo prazo: torna mais difícil que cientistas consigam reproduzir os experimentos ou tirar conclusões a partir deles. E assim uma grande cadeia de pesquisas científicas pode ser prejudicada.

A principal lição tirada por Bik de 2020, ano em que tanta pesquisa foi feita, é de que “normalmente, estudos médicos levam muito tempo. Um bom projeto costuma levar ao menos um ano ou vários anos para ser concluído, então qualquer coisa pesquisada em poucas semanas em uma pandemia não vai ter a melhor qualidade, embora seja necessária – em uma emergência, você quebra as regras, porque todos estão esperando por respostas. Mas aprendemos que a ciência rápida não é necessariamente a melhor ciência”.

Fonte: IG SAÚDE

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