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Saúde

“O inimigo é a Covid-19, não há tempo para brigas políticas”, diz infectologista

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BBC News Brasil

Fauci
Reuters/BBC

Fauci listou as razões para o aumento de infecções nos Estados Unidos

Donald Trump não entende completamente por que sua popularidade não é tão alta quanto a do cientista-chefe da equipe especial da Casa Branca contra o coronavírus, Anthony Fauci .

“Ele tem essa alta aprovação, então por que não a tenho? É impressionante”, disse Trump nesta semana.

Não foi o primeiro ataque do governo a Fauci, mas o  maior especialista em doenças infecciosas do país e principal epidemiologista da Casa Branca tenta se afastar dos tipos de controvérsias que ele descreve como uma distração do problema real: a pandemia Covid-19 .

“Eu me concentro apenas no meu trabalho”, disse ele à BBC em mais de uma ocasião nesta entrevista, na qual evitou qualquer atrito com a Casa Branca .

E, sem querer entrar em polêmica com ninguém, explicou os motivos que, segundo ele, levaram os Estados Unidos a um recrudescimento no número de casos confirmados por dia e listou cinco regras fundamentais que a população deve cumprir para que a curva de infecção seja achatada.

Confira a entrevista de Fauci a Razia Iqbal, do programa Newshour, da BBC.

Trump e Fauci.

Getty Images
Trump diz que tem um bom relacionamento com Fauci

BBC Vamos falar do número de infecções e mortes nos Estados Unidos.

Anthony Fauci Quando você olha para a dinâmica das curvas de infecção em nosso país, tivemos muitos casos quando a região metropolitana de Nova York foi o epicentro do surto.

Daí as curvas começaram a descer, mas não como aconteceu em outros países, principalmente na União Europeia e até no Reino Unido. Nunca chegamos a um ponto realmente baixo, mantivemos cerca de 20 mil casos por dia. E ficamos assim por algumas semanas.

O que aconteceu depois, quando suspendemos algumas restrições para reviver a economia, em certas regiões do país, como em alguns Estados do sul, como Flórida, Texas, Arizona ou sul da Califórnia, os contágios começaram a aumentar. Assim, a base passou de 20 mil casos diários para 30 mil, 40 mil, 50 mil, 60 mil e até 70 mil.

As mortes, que haviam caído, começaram a aumentar e agora temos aproximadamente mil mortes por dia.

Ainda temos um número considerável de casos novos, então estamos tentando controlar isso, começando a achatar a curva. Mas nossa preocupação é que outros Estados de outras regiões pareçam estar passando pelo que os Estados do sul passaram.

Máscara em apoio a Fauci

EPA
Trump diz que não entende por que Fauci é mais popular que ele

BBC Existem 12 Estados nos EUA registrando mais de 100 mil casos no momento. Claramente, é um equilíbrio muito difícil, além disso, a emergência de saúde é global. O que o senhor acha que poderia ter sido feito de maneira diferente?

Fauci O que estamos tentando fazer, e espero que tenhamos sucesso, é reunir diretrizes para as quais trabalhamos com a equipe especial de coronavírus da Casa Branca. Essas diretrizes, que devem ser usadas pelos Estados, são essencialmente um guia passo a passo para a abertura cuidadosa e prudente das restrições.

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Um dos problemas é que alguns Estados, não vou mencioná-los, não fizeram essa abertura passo a passo quando viram uma diminuição consistente no número de casos em um determinado período de dias.

Se isso for feito com êxito, permanecemos na fase 1 por um tempo e depois passamos para a segunda e a terceira fases. O que aconteceu em alguns Estados é que alguns dos marcos de controle foram ignorados e eles passaram para a fase seguinte, o que de fato causou o ressurgimento dos casos.

Em outros lugares, os Estados tentaram realizar esse processo adequadamente. No entanto, houve populações que não seguiram as recomendações para evitar multidões,  usar máscaras e manter o distanciamento social, e isso também produziu novos surtos.

Fauci com máscara

Reuters
Fauci sustenta que o uso de máscaras é muito importante

BBC Mas não foi um problema de comunicação? Embora sua equipe tenha preparado um plano sobre como os Estados deveriam reabrir, a mensagem enviada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeria que a reabertura não era um problema.

Fauci Não vou comentar sobre o presidente dos Estados Unidos , apenas estou apontando quais são os fatos e a situação pela qual os Estados Unidos estão passando. Ao contrário de outros países, tradicionalmente em nossa história, os Estados têm muita autonomia.

Obviamente, nós, autoridades da saúde , como é o meu caso e dos meus colegas da equipe especial, somos muito claros sobre o que fazer e falamos sobre isso repetidamente. E esperamos que os Estados vejam os resultados de não seguir as recomendações e que comecem a implementá-las, mas isso ainda é algo que deve acontecer.

BBC Entendo que o senhor não queira criticar diretamente o presidente dos Estados Unidos, mas há uma ligação clara entre o senhor e ele. Na verdade, Trump comentou recentemente sobre o nível de popularidade que o senhor tem e ele não.

Fauci Acredito que falar sobre esse tipo de coisa é realmente uma distração do que realmente estamos tentando fazer. Prefiro não comentar e focar no meu trabalho e minhas responsabilidades como agente de saúde pública.

BBC Mas o senhor também é uma pessoa conhecida há mais de quatro décadas como interessada em verdade e transparência. Então, quando a mensagem vinda do centro do poder político nos Estados Unidos sugere que o senhor está confundindo as pessoas, acho que se trata de algo de que o senhor queira falar.

Fauci Fiz isso e acho que o público não presta atenção a esse assunto. Tive a oportunidade de falar sobre isso muitas vezes. Mas, novamente, todas essas idas e vindas da crítica sobre quem estava certo e quem está errado é realmente uma distração da qual eu quero me afastar. Tento manter o foco na mensagem que eu carrego consistentemente.

Fauci com Trump

Reuters
Desde o início da pandemia, a imprensa americana acompanha a relação entre Fauci e Trump

BBC Então, vamos nos concentrar nas mensagens relacionadas à saúde pública: o uso da hidroxicloroquina. Esta é uma droga que não só foi mencionada pelo presidente, mas é promovida no Twitter e em vídeos no YouTube por médicos que a chamam de cura milagrosa. O que sabemos sobre o uso da hidroxicloroquina?

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Fauci Sabemos que bons estudos, e por bom estudo, quero dizer um com controle aleatório no qual os dados são confiáveis, nos fornecem dados que mostram que o uso da hidroxicloroquina não é eficaz no tratamento da covid-19.

BBC E sobre o uso de máscaras? Há alguns meses, quando foi decidido tornar obrigatório o uso de máscaras nos Estados Unidos, o presidente Trump disse várias vezes que ninguém deveria ser preso ou até ser multado se decidisse não usá-la. Do seu ponto de vista, é absolutamente necessário que as pessoas usem máscaras?

Fauci Isso é absolutamente necessário. Existem cinco elementos fundamentais que comunicamos de forma consistente e um deles é o uso constante de uma máscara. Os outros são: afastar-se de multidões, manter distância social de pelo menos 1,80 m e o quarto é tentar evitar bares e outros locais que possam ser fontes de transmissão. O último é manter medidas de higiene, como lavar as mãos com frequência.

Se essas cinco recomendações forem praticadas e isso está claro nos Estados onde isso foi feito, a curva de contágio poderá ser achatada.

BBC Me pergunto por que a pandemia foi tão politizada. É porque os Estados Unidos são um país extremamente polarizado…

Fauci Acho que qualquer pessoa que preste atenção aos EUA pode ver que há um certo grau de divisão política no país. É algo que, é claro, interfere, mas é apenas mais um fato do que acontece em nosso país.

Como cientista, claramente fico fora do debate político e concentro-me inteiramente em questões de saúde pública. Faço isso há mais de 40 anos e continuarei a fazê-lo. Minha mensagem sempre foi baseada nos dados científicos que tínhamos até então.

Uma das coisas que acho que confunde as pessoas é que não se entende que temos uma situação em constante evolução, pois estamos lidando com uma emergência de saúde com apenas seis meses de idade. Precisamos continuar aprendendo, procurando evidências. E as recomendações são feitas com base nas informações que possuímos, e é isso que causa mudanças nessas diretrizes à medida que obtemos mais dados.

BBC Como essa crise médica pode ser despolitizada para melhor gerenciá-la? O que o sr. aprendeu do que viu?

Fauci O que aprendi é que qualquer tentativa de se entrar no debate político é recebida como uma distração da principal mensagem de saúde pública. O que se deve tentar fazer individualmente e como sociedade é ter certeza de que entendemos que o inimigo aqui é o vírus, não há tempo para discussões políticas.

Temos um inimigo em comum, um inimigo global em comum. É uma pandemia histórica, não há tempo para se distrair com coisas que não estão relacionadas à luta contra o vírus.


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Saúde

Como a pandemia pode acelerar a desindustrialização do Brasil

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BBC News Brasil

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Camilla Veras Mota – @cavmota – Da BBC Brasil em São Paulo

Desempenho da indústria*. Em países selecionados – janeiro a junho/julho de 2020. *Com ajuste sazonal frente a igual período do ano anterior (exceto China).

A covid-19 parou o mundo e derrubou a atividade industrial em dezenas de países, ricos, emergentes e pobres.

Os dados divulgados neste mês pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) mostram quedas de dois dígitos em todas as regiões.

Levando em consideração o segundo trimestre deste ano, que concentrou a maior parte das perdas, o tombo foi de 12,9% na Ásia, de 16,5% na América do Norte, de 19,3% na Europa e de expressivos 24,2% na América Latina, quando se compara ao mesmo período do ano passado.

No ranking de países elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) com base dados da Unido e antecipado à BBC News Brasil, o Brasil aparece em 26º lugar entre 43 países, levando-se em consideração o intervalo de janeiro a junho ou a julho, a depender do país.

Nesse intervalo, a atividade industrial contraiu 9,7%, desempenho que coloca o país no lado de baixo da lista, mas ainda à frente de países europeus que amargaram resultados ainda piores: Portugal (-12,1%), Alemanha (-14,5%), Espanha (-15,2%), França (-15,4%) e Itália (-18,3%), que aparece em último lugar.

A magnitude menor pode dar a falsa sensação de que a posição do Brasil é mais confortável.

Mas, para o economista responsável pelo estudo, Rafael Cagnin, mesmo que o país mantivesse os mecanismos que suavizaram os choques negativos da covid-19 e retomasse a agenda de reformas, como a tributária, a situação do Brasil ainda seria “mais adversa”.

Isso porque, avalia ele, a pandemia deve acelerar dois processos que já vinham fazendo o país perder espaço na indústria global.

A indústria 4.0 e o ‘reshoring’

Na última década, o avanço tecnológico permitiu que indústrias em todo o mundo passassem por profundas mudanças.

Processos antes realizados por dezenas de trabalhadores foram automatizados, o armazenamento e processamento de dados em nuvem permitiu que as empresas minimizassem perdas e tornassem alguns processos mais eficientes (o que, em última instância, ajuda a aumentar as margens de lucro).

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O Brasil vem passando ao largo dessas transformações, que caracterizam a chamada indústria 4.0.

Mais que isso, o país vem passando por um processo de desindustrialização, diz Cagnin. Isso é visível não apenas pela perda de participação do setor no Produto interno Bruto (PIB), mas também na participação na indústria global e na fatia que os manufaturadores representam nas exportações, que é cada vez menor.

“A desindustrialização é multifacetada e aparece em todos os prismas”, diz o economista.

“Isso pode ser agravado de forma muito profunda com esse salto que pode ser dado agora (pela indústria global)”, ele completa.

Isso porque o uso cada vez mais intensivo de tecnologia na indústria e a transformação do setor devem ser acelerados no pós-pandemia, já que o mundo inteiro estará em busca de recuperar o mais rápido possível as perdas amargas de 2020.

Navio chinês

Arnaldo Alves/ ANPr
O ‘reshoring’ se caracteriza pela aproximação entre produção e mercados consumidores, que reduz custo financeiro e ambiental do frete

E não só isso. O pós-crise também deve intensificar, na avaliação do economista, um processo que vinha se consolidando nos últimos anos, o chamado ” reshoring ” — o contrário do ” offshoring “, o movimento de saída de muitas indústrias de países ricos para emergentes que marcou as últimas décadas.

A lógica do ” reshoring ” não é apenas trazer de volta empregos que foram “exportados”, mas atender a uma exigência cada vez mais forte dos consumidores para que o processo produtivo seja sustentável.

Aproximar a produção dos mercados consumidores reduz os custos de frete e permite que as empresas acompanhem de perto cada etapa da produção e adotem critérios rígidos tanto em relação às leis trabalhistas quanto ao meio ambiente.

“E o plano de recuperação da União Europeia tem claramente um ‘eixo de recuperação verde’, um ‘ green new deal ‘”, destaca, referindo-se ao programa anunciado no último dia 21 de julho, que dá as diretrizes para o orçamento do bloco para os próximos sete anos.

A tecnologia pode facilitar esse processo.

O custo de mão de obra mais elevado em países europeus e nos Estados Unidos está entre as principais razões que levaram à transferência de unidades produtivas para outras regiões, especialmente para o Sudeste Asiático. Agora, a robotização barateia a produção e abre espaço no orçamento para que as empresas arquem com os salários maiores dos trabalhadores localizados em seus países-sede. Em outras palavras, ela permitiria, do ponto de vista de custos, que uma fábrica que foi transferida para a China voltasse para a Alemanha, por exemplo.

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De maneira geral, o processo reduz o volume de empregos gerados pela indústria (daí o grande debate sobre o desemprego potencial gerado pela automação e pelo desenvolvimento tecnológico), mas passa a criar vagas nos países de origem das empresas.

“Quando você precisa acelerar crescimento econômico, esses movimentos todos se tornam convergentes.”

“E isso abre espaço para uma disrupção estrutural. Alguns países vão conseguir dar saltos de produtividade muito grandes e avançar mais rapidamente”, avalia.

Nesse cenário, o Brasil vai ficando para trás e sua indústria vai perdendo competitividade — o que contribui para que ela veja diminuir ainda mais seu espaço na estrutura produtiva global, aprofundando a desindustrialização.

Mulher trabalhando em uma fábrica

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Entre 2011 e 2019, produção encolheu 15% no país e entrou em 2020 operando no mesmo nível de 2004

O desafio de ‘digerir’ uma crise após a outra

O desempenho da indústria brasileira em 2020 foi em parte poupado pelos programas criados para amortecer os efeitos da crise gerada pela pandemia.

De um lado, o auxílio emergencial sustenta uma parte da demanda dos consumidores. De outro, os programas de crédito dão algum fôlego para as empresas.

A Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do IBGE mostra, de certa forma, esses efeitos.

Desempenho da indústria*. Em países selecionados - janeiro a junho/julho de 2020. *Com ajuste sazonal frente a igual período do ano anterior (exceto China).

Entre os 25 segmentos acompanhados pela pesquisa, quatro chegaram a crescer no período entre janeiro e julho, em comparação ao mesmo intervalo do ano passado, sendo três deles diretamente ligados a esses fatores: a indústria de produtos alimentícios (4,9%), de produtos de limpeza (4,1%) e de produtos farmacêuticos (1,9%).

Os dados desagregados também expõem a dimensão do problema, especialmente de médio e longo prazo. Os segmentos de maior intensidade tecnológica, como de aparelhos elétricos, produtos eletrônicos e máquinas, recuaram mais do que a média (de 9,7%), assim como o ramo de bens de capital, que está diretamente ligado ao investimento.

Isso se soma ao fato de que o setor ainda tentava digerir a recessão de 2014-2016, cujos estragos ainda não haviam sido totalmente recuperados.

“A gente já tem feridas não cicatrizadas da crise anterior, e essa vai trazer novos problemas que podem se arrastar daqui pra frente.”


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Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Brasil registra 141.741 mortes por Covid-19, diz boletim oficial

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Alex Pazuello/Semcom

No Brasil, foram registradas 335 mortes por Covid-19 nas últimas 24 horas

O Brasil registrou  141.741 mortes por Covid-19. O dado foi obtido pelo boletim oficial do governo, atualizado neste domingo (27), às 18h. Em  24 horas, desde a atualização anterior, do sábado (26), foram  335 mortes por Covid-19.

No sábado (26), o número de  mortos por Covid-19  no Brasil era de 141.406, e o número de casos era de 4.717.991.

Segundo o documento deste domingo (27) do Ministério da Saúde, o país contabilizou 4.732.309 casos da doença gerada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2), um aumento de 14.318 casos em 24 horas.

A incidência da  Covid-19  é de 2.251,9 a cada 100 mil habitantes. Já a mortalidade é de 67,4 a cada 100 mil habitantes, segundo dados do governo.

A região com maior número de casos e mortes por Covid-19 é a Sudeste, com mais de 1.651.908 de registros e 64.118 mortos pela doença.

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Os dados são disponibilizados na plataforma covid.saude.gov.br . Além do boletim oficial sobre a pandemia de  Covid-19  no Brasil, há também os números obtidos pela apuração do consórcio de veículos de imprensa.

Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

O mistério das vacinas que têm benefícios muito além dos esperados

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BBC News Brasil

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Zarla Gorvertt – Da BBC Future

Mulher sorridente recebendo uma vacina no braço
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Cientistas estão tentando descobrir como algumas vacinas têm mais benefícios do que é esperado delas

Peter Aaby balança a cabeça, como se ainda não conseguisse acreditar. “Na verdade, foi o começo de tudo. Algo muito estranho aconteceu”, diz ele.

Aaby está falando comigo via Skype de sua terra-natal, a Dinamarca. Mas ele passou a maior parte das últimas quatro décadas na Guiné-Bissau, um país pequeno e pobre da África Ocidental, marcado por um passado colonial conturbado e uma história recente de sucessivos golpes de Estado.

Ele se mudou para lá em 1978 para fundar uma instituição sem fins lucrativos, o Projeto Saúde Bandim.

Na época, não havia um programa nacional de vacinação contra o sarampo, então, após um surto particularmente devastador, a equipe decidiu concentrar seus esforços em vacinar as crianças locais.

Cerca de um ano após o início das vacinações, eles fizeram uma descoberta extraordinária: aqueles que haviam sido vacinados contra o sarampo tinham 50% menos probabilidade de morrer do que aqueles que não foram. “Foi impressionante”, diz Aaby.

Mas isso não se deve aos motivos que você pode imaginar a princípio.

O sarampo nunca chegou a ser responsável por metade das mortes entre crianças da Guiné-Bissau. Com base na proporção dos que morriam originalmente da doença, a vacina deveria ter sido muito menos benéfica do que foi. Os números não batiam.

“Estávamos nos perguntando ‘Como isso pode acontecer?'”, diz Aaby.

Nos estudos em grande escala que se seguiram, descobriu-se que a vacinação estava reduzindo em um terço as chances de crianças morrerem, enquanto apenas 4% desse declínio foi explicado pela prevenção do sarampo.

Este é o poder de um fenômeno misterioso que Aaby chamou de “efeitos não específicos” das vacinas.

Acidentes fortuitos

Por mais de um século, certas vacinas têm nos fornecido uma espécie de proteção adicional que vai muito além do que se pretendia.

Mulher carrega saco na cabeça na Guiné-Bissau

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Evidências de estudos na Guiné-Bissau indicam que as vacinas frequentemente conferem proteção contra outras doenças

Esses efeitos misteriosos não apenas nos protegem na infância, mas também podem reduzir nosso risco de morrer em todas as outras fases da vida.

Uma pesquisa na Guiné-Bissau descobriu que as pessoas que tinham tomado vacina contra a varíola tinham até 80% mais chances de ainda estarem vivas cerca de três anos após o início do estudo.

Na Dinamarca, os cientistas descobriram que aqueles que receberam a vacina contra a tuberculose na infância tinham 42% menos probabilidade de morrer de causas naturais até os 45 anos.

Isso também ocorre entre cães: um experimento na África do Sul descobriu que aqueles que foram vacinados contra a raiva tinham taxas de sobrevivência muito mais altas, além do que seria esperado da imunidade somente à raiva.

Outros acidentes fortuitos incluem nos proteger de patógenos que não estão relacionados com seu alvo, reduzir a gravidade das alergias, combater certos tipos de câncer e ajudar a prevenir o mal de Alzheimer.

A vacina contra a tuberculose está atualmente sendo testada contra a covid-19, embora os micro-organismos por trás das duas doenças sejam totalmente diferentes: um é uma bactéria, o outro, um vírus. E os dois estão separados por 3,4 bilhões de anos de evolução.

Apesar de décadas de pesquisa, esses efeitos não são totalmente compreendidos. Mas até que os entendamos, os cientistas relutam em aplicá-los em nosso proveito, por isso há uma corrida para descobrir o que está acontecendo.

Os benefícios da BCG

Embora a existência de “efeitos não específicos” não estivesse bem estabelecida até o trabalho de Aaby na década de 1980, os cientistas suspeitavam há muito tempo que algo estranho acontece quando somos vacinados.

Veja por exemplo a tuberculose, um dos inimigos mais antigos da humanidade.

Convivemos com esse vilão bacteriano há pelo menos 40 mil anos e, na grande maioria de nossa história, ter essa doença foi uma sentença de morte.

A bactéria foi encontrada em um terço de todas as múmias egípcias antigas, e podemos ter passado ela para os neandertais.

Desde o início do século 20, ela ceifou a vida de dezenas de milhões de pessoas, incluindo o escritor George Orwell, a ex-primeira dama americana Eleanor Roosevelt e o romancista Franz Kafka.

Isso mudou quando os bacteriologistas franceses Albert Calmette e Camille Guérin inventaram a vacina BCG, que foi feita alterando gradativamente a versão da bactéria encontrada nas vacas.

A vacina foi administrada pela primeira vez a uma criança em 1921 e, na década de 1950, ficou claro que jogo tinha virado. A vacinação é considerada de 70% a 80% eficaz na prevenção das formas mais graves da doença.

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Os cientistas notaram ainda que a BCG estava associada a uma queda dramática no número de crianças que morriam nos primeiros meses de vida.

Isso sempre foi chocante, porque era improvável que fosse por causa da vacina que previne casos graves de tuberculose. A doença geralmente leva um tempo para se desenvolver.

“Caiu quase 70%”, diz Mihai Netea, imunologista da Universidade Radboud, na Holanda. “Portanto, desde o início, os efeitos benéficos foram substanciais.”

Ilustração em preto e branco de pessoa morrendo em um período mais antigo

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A tuberculose foi responsável pela morte de dezenas de milhões de pessoas

Desde então, ficou claro que a BCG não estava apenas associada a uma mortalidade mais baixa, mas que fornecia proteção contra uma ampla gama de infecções não relacionadas à tuberculose, como gripe, septicemia e herpes.

Treinamento imunológico

Uma possível explicação para a capacidade de certas vacinas de nos proteger de micro-organismos diferentes daqueles que deveriam ter como alvo é que eles compartilham antígenos, moléculas usadas pelo sistema imunológico para identificar invasores.

Por exemplo, a vacina BCG pode introduzir no corpo uma proteína específica que também é encontrada em outra bactéria ou vírus.

Mas quando você considera a enorme diversidade de outras infecções que essa vacina em particular pode prevenir, parece improvável que todos esses micro-organismos tenham os mesmos antígenos.

Outra ideia é que as vacinas estão inadvertidamente fornecendo ao sistema imunológico um tipo de treinamento mais geral.

Estudos recentes descobriram evidências disso, incluindo um grupo de adultos jovens que recebeu a BCG e depois foi exposto a outros patógenos além da tuberculose e teve um tipo diferente de resposta imunológica que aqueles que não foram vacinados.

A verdadeira surpresa é que isso sugere que esses estranhos efeitos benéficos não se devem ao sistema imunológico adaptativo, o tipo de reação imune que vacinas são projetadas para desencadear, envolvendo células que aprendem a caçar patógenos específicos, mas ao sistema imunológico inato.

Isso é incomum, porque essa defesa geral mais primitiva não é pensada para ser capaz de evoluir e se adaptar da mesma maneira.

“A vacina BCG está reprogramando o DNA do sistema imunológico”, diz Aaby. “Então, isso significa que você criou imunidade especificamente contra a tuberculose, mas também treinou o sistema imunológico.”

Isso pode explicar por que a vacina também pode proteger as pessoas de certos tipos de câncer e demência, uma vez que o sistema imunológico desempenha um papel importante no desenvolvimento de ambos.

Nossas células imunológicas estão constantemente vasculhando o corpo em busca de tecidos mutantes para destruir, e o câncer é significativamente mais comum em pessoas que tomam drogas imunossupressoras.

Enquanto isso, há muito se acredita que uma inflamação persistente está envolvida no mal de Alzheimer, que tem ligações com doenças imunológicas, como a doença de Crohn.

Surpreendentemente, a BCG é agora um tratamento padrão para o câncer de bexiga e uma das terapias mais bem-sucedidas desse tipo.

Pacientes com câncer de bexiga que foram tratados com a vacina são menos suscetíveis ao Alzheimer, e agora testes clínicos verificam se reduz isso a incidência de placas (aglomerados anormais de proteínas ligadas à doença) em pessoas saudáveis.

Aaby explica que, embora uma dose de vacina seja benéfica, quanto mais doses uma pessoa tomar, mais fortes tendem a ser esses efeitos positivos inexplicáveis.

“De alguma forma, o sistema imunológico reage bem ao ser estimulado”, diz ele.

Lesão em braço de bebê após tomar vacina BCG

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A dose de BCG que muitos de nós tomamos nos primeiros meses de vida essencialmente treina nosso sistema imunológico

Na verdade, não são apenas as vacinas que parecem ser capazes de fazer isso. Aqueles que foram naturalmente infectados por patógenos como o sarampo têm melhores perspectivas de sobrevivência a longo prazo do que aqueles que nunca foram infectados.

Não está totalmente claro por que isso acontece, mas, novamente, acredita-se que seja devido ao treinamento imunológico que o corpo recebe, o que o ajuda a lutar contra outras doenças.

Estranhamente, embora já se acredite que esses benefícios ocultos salvam milhões de vidas todos os anos, Aaby diz que seu potencial não está sendo maximizado. “Prefiro dizer o contrário”, diz ele.

Por um lado, eles não são levados em consideração atualmente ao projetar programas de vacinação. Isso é problemático, porque nem todas as vacinas são igualmente capazes de gerá-los – e algumas podem ter o efeito oposto.

Garotas vs. garotos

Um exemplo é a vacina contra o sarampo. Quando Aaby e sua equipe introduziram um novo tipo dela na Guiné-Bissau na década de 1990, eles ficaram horrorizados ao descobrir que isso dobrou a taxa de mortalidade de meninas, embora não de meninos. Anos depois, eles começaram a entender o porquê.

Embora os efeitos não específicos estejam associados a uma ampla variedade de vacinas, desde coqueluche até poliomielite, varíola, febre amarela e gripe, eles funcionam melhor com aquelas que contêm vírus vivos.

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Essas vacinas “vivas” são feitas com patógenos que ainda são capazes de fazer cópias de si mesmos e enfraquecendo-os para que não sejam tão prejudiciais.

As “vacinas inativadas”, por outro lado, envolvem bactérias ou vírus que foram “mortos” com calor ou produtos químicos e, portanto, não podem se reproduzir.

Como as vacinas vivas trazem benefícios ocultos e as inativadas não, a ordem em que são administradas é importante.

Existem agora evidências crescentes de que, se as crianças recebem uma vacina inativada depois de uma viva, isso cancela alguns dos benefícios que seriam proporcionados.

Antes da aplicação da nova vacina contra o sarampo na Guiné-Bissau, era normal receber uma dose da vacina inativada contra difteria, tosse convulsa e tétano (DTP), seguida da vacina viva contra o sarampo aos 9 meses.

Mas a nova vacina foi dada aos quatro meses, o que significa que a DTP foi dada por depois. (Outras vacinas inativadas também podem prejudicar o efeito benéfico se forem administradas fora da sequência, como a poliomielite.)

Embora os cientistas agora estejam cientes da importância vital da ordem em que as vacinas são administradas, Aaby diz que isso ainda não é levado em consideração rotineiramente, de modo que muitas crianças podem não estar se beneficiando como poderiam.

Não está claro por que a sequência das vacinas só importava em meninas, em parte porque houve muito pouca pesquisa sobre como os sistemas imunológicos masculino e feminino são diferentes.

“De alguma forma, a imunologia tem sido cega para o sexo”, diz Aaby. “Se você ler pesquisas sobre mortalidade em países de baixa renda, não existem meninos e meninas, existem crianças. Então, pensamos que eles são iguais, mas, definitivamente, não são.”

Seringa ao lado de frasco da vacina contra a varíola

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Mesmo que a varíola tenha sido erradicada na natureza, sua vacina ainda pode trazer outros benefícios à saúde

Pesquisas mostraram diversas vezes que as mulheres têm um sistema imunológico mais forte do que os homens.

Elas são menos propensas a adoecer gravemente por causa de infecções, menos suscetíveis ao câncer e significativamente menos sujeitas a reações exageradas do sistema imunológico, como no caso de doenças autoimunes e alergias.

As mulheres também tendem a apresentar respostas imunológicas mais fortes às vacinas.

“O sistema imunológico feminino deve ser muito diferente pela razão óbvia de que elas devem ser capazes de engravidar e não rejeitar o feto. Portanto, é necessário ter um sistema imunológico que tenha um mecanismo mais complexo. E isso é verdade desde o nascimento”, diz Aaby.

Se os efeitos positivos não intencionais das vacinas (e a melhor forma de aproveitá-los) fossem levados em consideração ao planejar programas de vacinação, estima-se que mais 1,1 milhão de mortes poderiam ser evitadas a cada ano.

Da mesma forma, as consequências de ignorá-los podem ser catastróficas.

O paradoxo da erradicação

Em 1980, a Assembleia Mundial da Saúde anunciou que a varíola havia sido erradicada, após uma longa e persistente campanha global para vacinar crianças.

Mas, assim que o vírus foi extinto, outra coisa também desapareceu: as vacinas. No Reino Unido, as crianças nascidas depois de 1971 não as receberam, e isso pode ter sérias implicações para sua saúde.

Criança afegã recebe vacina contra a pólio

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O Afeganistão é um dos poucos lugares onde a poliomielite ainda não foi erradicada

“Tanto na Guiné-Bissau quanto na Dinamarca, a vacina contra a varíola foi associada a um efeito benéfico muito forte. Mas, quando removemos a vacina, não havia um único estudo sobre o que isso pode causar”, diz Aaby.

Neste momento, o mundo está à beira de outra vitória. A poliomielite tem sido erradicada em quase todos os cantos do planeta.

Foi declarado no início deste mês que a África está oficialmente livre do vírus, que, agora só é encontrado em pequenos bolsões do Afeganistão e do Paquistão.

Isso levou à preocupação sobre o que pode vir a seguir. Como a vacina contra a varíola, a vacina contra a poliomielite é acompanhada por uma grande dose de efeitos não específicos.

Por exemplo, em 2004, foi parcialmente creditado a ela uma redução da mortalidade infantil de cerca de 67% na Guiné-Bissau, apesar do fato de que a poliomielite já havia sido quase completamente erradicada por lá na época.

“Pode ser que, ao erradicar a doença, paremos de tomar a vacina. E, achando que estamos fazendo algo bom, estamos na verdade aumentando a mortalidade”, diz Aaby.

Embora o movimento antivacinas venha falsamente levantando suspeitas contra as técnicas de imunização há décadas, parece que, ironicamente, o único segredo das vacinas sejam que elas são melhores para nós do que qualquer um jamais imaginou.

Talvez seja hora de descobrirmos todo seu potencial, antes que seja tarde demais.


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Fonte: IG SAÚDE

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